
Havíamos perdido contato há algum tempo e acabamos nos reencontrando no final do ano. Conversando, caímos no assunto Igreja e contei-lhe que estava trabalhando na igreja. Ele até que tentou, mas não pôde me esconder a mudança em sua expressão. Eu já tinha visto aquele olhar antes; eu tinha acabado de ser colocado em uma caixinha.
Imagino que naquele momento imagens horríveis começaram a passar pela sua cabeça. Ele me via com um terno bege amarrotado, uma gravata azul estampada sobre uma camisa vermelha listrada. Os sapatos certamente não estavam engraxados e as meias eram brancas, do tipo esportiva. E lá estava a imagem pronta. Isso para não falar na Bíblia tamanho "incarregável", com as bordas desgastadas e alguns folhetos amassados dentro. Provavelmente ela já me imaginava pregando, defendendo arduamente os usos e costumes e condenando a todos que não seguem os bons (??) modos do passado. Sem falar no mérito do farisaísmo; Talvez, em sua cabeça, eu buscasse freneticamente a santidade, passando o dia todo na igreja sem ter contato com amigos, ignorando a Graça Divina e o amor às pessoas.
Imagem assustadora, não? Mas isso me fez pensar sobre outra imagem ainda mais crítica. Pensei em como a religião coloca Deus em uma caixinha, tal como fui colocado - guardadas as devidas proporções, obviamente.
Lembrei de muitas conversas que tive com diferentes pessoas e de como elas me apresentavam um Deus irreconhecível. Um Senhor pronto a punir todo e qualquer deslize com raios fulminantes na cabeça dos pecadores. Um Deus inacessível e distante, que nos ouve por dó ou pela nossa insistência. Um Senhor santo demais para que nós tenhamos algum direito junto a Ele. Se quisermos ser ouvidos, tratemos de nos humilhar. Se precisarmos de perdão, então que paguemos por ele, com muita auto-desvalorização.
Me pergunto se essa imagem sobre Deus tem algum fundamento bíblico ou se é apenas fruto de uma caixinha, na qual muitos insistem em colocá-lo.
Assim como fui colocado em uma caixinha padrão para "obreiros", muitas vezes tendemos a colocar Deus em uma caixinha padrão de santidade punitiva e desprovida de amor. Poderia ir ainda mais longe dizendo que, do mesmo modo que fui colocado em uma caixinha porque meu amigo não me conhecia totalmente, também o mesmo ocorre com relação a Deus.
Quanto mais ouço as definições que muitas pessoas têm sobre Deus, mais acredito que lhes falta conhecer o Deus que a Palavra mostra, que tem a graça e o amor como Suas marcas principais; que gosta de ser chamado de Papai (Aba) e nos trata como filhos amados; que foi mais longe por nós do que nós jamais poderíamos imaginar; que se fez como um de nós e, após Sua passagem aqui na terra, rasgou o véu da separação e prometeu nos levar para perto dEle.
Atentemos para a grandeza da tradução de Emanuel: "Deus Conosco".
Não posso conceber a idéia de que esse Deus caiba em uma caixinha como a que foi descrita algumas linhas acima. Nem ao menos posso conceber a idéia de que esse Deus caiba em qualquer tipo de caixinha. E me pergunto o porquê que, em vez de procurarmos conhecer a Deus, muitas vezes simplesmente o colocamos em uma caixa com formato predefinido e agimos conforme o formato dessa caixa. Ainda na minha comparação, fico imaginando o sentimento que muitas vezes causamos em Deus: se eu fiquei triste com a minha caixinha, creio que Deus também fique com a dEle.
Apliquemos em nossas vidas uma dose de Oséias 6.3: "Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor".
As caixinhas são criadas pela falta de conhecimento. Por vezes ficamos presos a elas de tal modo que não conseguimos imaginar Deus fora de um padrão. Mas há o contra ponto. O conhecimento sobre Deus nos vacina contra as caixinhas. Leiamos as palavras de Cristo em João 8:32: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Ao nos deparamos com a verdade sobre Deus, a religiosidade e as caixinhas caem e passamos a ver Deus como ele realmente é. "E todos nós recebemos também da Sua plenitude, e graça sobre graça". João 1:16.

